Os preceitos do jornalismo são claros: é notícia tudo aquilo que transforma a realidade da sociedade de alguma forma. E é evidente que o culto a Luíza, talvez a primeira anônima a se tornar celebridade sem ter mexido um dedo ou falado uma palavra, e o suposto estupro dentro de um reality show não se encaixam na fórmula. Certo?
Carlos Nascimento fez bem ontem à noite o papel do bom jornalista que é. Abriu o “Jornal do SBT”, do qual é âncora, falando o que muitos companheiros de profissão têm vontade, mas poucos se arriscam. Criticou de forma dura o expressivo valor que a mídia e a população têm dado aos dois acontecimentos, dizendo que "ou os problemas brasileiros estão todos resolvidos, ou nós nos tornamos perfeitos idiotas".
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Desde que seu nome estourou na internet, Luíza, a agora ex-canadense, virou assunto no divertido “Jornal Hoje” e no “Globoesporte”, passou pela coluna de Gilberto Dimenstein, na Folha.com, motivou piada de José Simão, na BandNews, foi o assunto do dia em sites de fofoca e de outros segmentos e acabou na revolta do próprio Nascimento. Dá para dizer que ela conquistou bastante coisa.
Apoio plenamente a indignação, embora tenhamos abordado tanto Luíza quanto BBB por aqui. E os leitores gostaram. O jornalista alega que casos como estes não podem chamar tanto a atenção do país por serem fúteis demais, por pecar pela falta de premissa jornalística. É de se concluir, portanto, que a grande mídia, na qual ele o SBT se incluem, deveria dar o exemplo e produzir conteúdo que definitivamente ajude a resolver os nossos problemas, como enfatiza o próprio jornalista.
A máxima popular prega que para dar exemplo é preciso sê-lo. E o SBT não se enquadra em nem um nem outro. A mesma emissora que puxa a orelha da população e da mídia, levantando a bandeira do bom jornalismo, de tom comprometido, é a mesma que já bancou – ou ainda banca - o entretenimento travestido de informação relevante. Aquele igual ao caso da Luíza, que contribui para nos deixar mais idiotas.
Em 28 de dezembro, ao anunciar a contratação do novo editor-chefe do SBT Brasil, noticiário que também vai ao ar à noite, o canal ressaltava que voltaria, a partir dali, a “priorizar a notícia”. Isso mesmo. Em nota, a emissora explicou que “desde outubro de 2011, o SBT Brasil vem abandonando a ideia de trabalhar apenas com matérias de comportamento, e voltou a priorizar a notícia, a informação que interessa ao dia-a-dia das pessoas”.
Pois então, questiono: Como um jornalístico pode preterir a notícia que interessa ao dia-a-dia das pessoas? O comunicado, repercutido por
Adnews à época, argumentava que a missão da emissora é "fazer do SBT Brasil um jornal mais próximo do público, que trate de assuntos importantes sem ser chato e arrogante". Arrogância esta que a emissora demonstrou ontem via Carlos Nascimento.
Ao fazer um apelo válido para a profissão cujo preceito é informar, fiscalizar o poder, denunciar, brigar pelo povo, o jornalista esqueceu-se de onde falava. Falava de um estúdio da emissora que tradicionalmente nunca ligou muito para o jornalismo. Que assumiu ter mantido no ar um telejornal no qual a notícia não era a prioridade.
Por Marcelo Gripa
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